sexta-feira, 30 de abril de 2010

Lançamento de biografia de Querino na Bahia

Manuel Querino entre letras e lutas - Bahia 1851-1923, da autoria de Maria das Graças de Andrade Leal, foi editado pela Annablume/Uneb e será lançado na cidade do Salvador no dia 13 de maio próximo na Biblioteca Pública do Estado da Bahia às 16:30. Este lançamento está integrando as comemorações de aniversário dos 200 anos da Biblioteca. 

Seguem dados fornecidos pela editora Annablume:

 Manuel Querino
Manuel Querino – Entre letras e lutas – Bahia 1851-1923
Maria das Graças de Andrade Amaral
Formato 16X23cm, 484 páginas
ISBN 978-85-391-0026-2


Neste livro, Maria das Graças Leal desenvolve um importante estudo biográfico sobre Manuel Raymundo Querino (1851-1923). A autora apresenta as várias faces deste sujeito singular e plural, ao tecer um enredo que revela a história de sujeitos incógnitos, fazendo ressoar vozes silenciadas pela historiografia tradicional. À medida que a sua trajetória é revelada, a história política e social do trabalho e da arte e a trajetória de outros homens que viveram, criaram, produziram, lutaram, puderam ser retiradas da penumbra. Uma versão da história vista pela ótica do oprimido é construída com cores, movimento, luminosidade, ao valorizar a existência de pessoas reais que enfrentaram dificuldades e conquistaram vitórias reais. Brasileiro afrodescendente, nascido em Santo Amaro da Purificação-Bahia, viveu intensamente acontecimentos significativos da história do Brasil, e da Bahia em particular, que marcaram os anos finais do Império e iniciais da República. Da sua base operária, enveredou pelo mundo da política partidária, na medida em que desenvolvia o talento de artista, diplomando-se em desenho e cursando arquitetura. No Império, militou no trabalhismo, criando a Liga Operária Bahiana e, na República, foi um dos fundadores do Partido Operário, a partir do qual foi conduzido para o cargo de Conselheiro Municipal por duas legislaturas (1891-1892 e 1897-1899). Desligando-se da política partidária, iniciou uma outra militância, ao se dedicar à produção de conhecimento e ao magistério. Pelo trabalho intelectual que produziu, Querino se consolidou na sociedade baiana, garantindo prestígio no meio intelectual e no meio operário.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Campanha Quem é do Axé Diz Que É! - Diga que é filho de Oxalá


A Tarde 15/04/2010

Jaime Sodré
Professor universitário, mestre em História da Arte, doutorando em História Social


O não e o sim têm as suas razões históricas.

Não se trata de uma simples concordância ou uma rejeição ao sabor da vontade pessoal ou coletiva, desprovida de conteúdos significativos, mas das ações de forças poderosas, construtoras dos fatos, como resultado das relações e tensões densas ou harmônicas dos atores sociais. Assim, o nosso imperador mandou “dizer ao povo que fico”, num episódio de afirmação, ou seja, o sim, que entrou para a história como o Dia do Fico. Mas Pedro, o outro, no episódio bíblico negou Cristo, não só uma vez, e sim nas reiteradas “três vezes”. Negar é dizer não.

Motivações não lhe faltariam? Não cabe aqui julgá-lo.

Nos episódios revolucionários, em defesa dos seus pescoços, provavelmente silenciando ideias verdadeiramente nobres, inconfidentes baianos ou mineiros disseram não, mas a Coroa disse sim à execução de alguns dos nossos heróis. Maria Quitéria negou a sua condição feminina, transitória em farda masculina, no desejo de servir ao imperador. Os tentáculos da opressão operam milagres nefastos, cruéis, e muitos, sobre este espectro do ódio, da dor e da perseguição, na tortura, enfim, disseram não ou talvez sim? Caetano cantou “é proibido proibir” dizendo que a “mãe da virgem diz que não”.

Mas o que pode soar como uma inoportuna “lenga-lenga” justifica-se para abordar o que segue. De há muito o corpo religioso do segmento de matriz africana escondia-se em um “não”, e para um exercício razoável dos rituais sagrados do candomblé, buscava-se o “sim”, a possível realização, ocultando-se no “sincretismo”, um disfarce em tempos opressores.

Mais tarde, embora o Estado dissesse não, em uma ação de perseguição inolvidável, invadindo templos, o “sim”, ou seja, o exercício dos rituais litúrgicos só se fazia mediante autorização policial. A campanha depreciativa, sistemática, contra o candomblé, impondo-lhe proximidade com a barbárie e a feitiçaria, fizera muitos negarem sua vinculação religiosa de base africana, a sua filiação legítima.

Presenciei, em tempos de outrora, veneráveis personalidades do povo-de-santo não exibindo as suas contas sacrossantas por temer censura ou embaraços. Não seria incomum neste contexto histórico que muitos se afirmassem católicos. Mas, afinal, o dia da assunção plena, dizendo “alto e bom som” a sua verdadeira convicção religiosa, chegara.

Reunidos no Teatro Gláucio Gil, coordenada pelo Coletivo de Entidades Negras (CEN) e pela Superintendência de Direitos Humanos Coletivos e Difusos (Superdir), foi lançada a campanha “Quem é de Axé diz que é!” Razões históricas amparam esta iniciativa, mas, muito além do lançamento desta campanha, fora assinado um convênio entre a Superdir e a Secretaria de Promoção de Políticas da Igualdade Racial (Seppir) que objetiva a criação do Centro de Referência de Enfrentamento à Intolerância Religiosa e a Promoção dos Direitos Humanos e do termo de compromisso para catalogação das peças religiosas de matriz africana que foram aprisionadas entre os anos 30 e 40, principalmente.

O lançamento da campanha foi comemorado com alegria, um grupo de ialorixás e babalorixás presentes vibrou em cortejo.

Creio que para Marcos Rezende, coordenadorgeral do CEN, e demais nobres fiéis realizadores e colaboradores, o momento é de grande e ampla divulgação, por isso, sirvo-me deste espaço para dar “a boa nova”.

Chegou o momento de o “sim” vencer o “não”, o momento de assumir, sem receio, o que a lei e a fé nos permitem. Deste modo, quando o rapaz ou a moça do IBGE bater na sua porta, receba-o bem, com educação; dê-lhe água fresquinha, pois a sua tarefa é árdua; sirva-lhe um cafezinho, feito na hora; quem sabe, biscoitos, banana frita ou acarajé e abará.

Mande-o sentar, e ao ser perguntado sobre a sua religião, não tema, diga e repita, para que ouça bem e com clareza: “Meu nego, eu sou filho de Oxalá”. “Minha filha, eu sou do candomblé, sou do Axé, e você? Anote aí. Que ele mesmo te proteja e te livre das horas más. Vá na paz de Oxalá. Que ele mesmo abençoe a você e todos os seus, lembrança, e apareça! Mas aproveite também para participar, caso o seu tempo permita, dos grupos de gestão do Censo. Há inclusive, a possibilidade de responder no próprio site do IBGE”.
Quando o IBGE perguntar sobre sua religião, diga com clareza: “Eu sou do candomblé, sou do Axé”

quarta-feira, 14 de abril de 2010

terça-feira, 13 de abril de 2010

Agressão a terreiros

Por Emiliano José
Num momento da história, tragédia. Noutro, farsa. Lembro-me de Marx, justo dele, um materialista convicto, quando vejo movimentos da Prefeitura de Salvador contra as religiões de matriz africana. Por que esses movimentos, por que essa má vontade com o candomblé? Quais as motivações? Poderia dizer que é como se a atual administração ouvisse ecos do passado escravocrata ou, até mesmo, do século XX, quando a religião dos negros ainda tinha que pedir licença policial para realizar seus ritos.
Fico aqui a matutar sobre como reagiram os religiosos do Ilê Odô Ogê, terreiro também conhecido como Pilão de Prata, ao receberem um jovem fiscal da Prefeitura, no dia 18 de março deste ano. Constrangido, notificava a casa religiosa pelo barulho provocado pelos “instrumentos de percussão”, que era como ele se referia aos atabaques. A notificação dizia que a “emissão sonora gerada em atividades não residenciais” somente poderia ocorrer se autorizada pela Prefeitura. Incrível, mas verdadeiro. Penso na lei, na isonomia, e constato a óbvia discriminação. Com essa atitude, agride-se notoriamente o dispositivo constitucional da liberdade de culto.
Ao fiscal, explicou-se que a roça do Ilê Odô Ogê nascera lá pelos idos de 1963, que o terreiro fora tombado em 2004. Tratava-se de um templo já tradicional. Ao jovem fiscal foram mostrados o Museu e a Biblioteca do terreiro. Não havia diálogo, não se admitia conversa. Ele tinha que lavrar o auto. Por que isso só ocorre apenas com as religiões de matriz africana? Por que essa perseguição à religião dos negros, assumidamente religião de negros? Por que essa dificuldade em lidar com a diversidade religiosa? Por que essa intolerância que não cessa? Por que não se aplica o princípio de que toda religião tem que ser igualmente respeitada? A Prefeitura – ou se quisermos o Estado, em sentido amplo – tem obrigação de ser laica e na sua laicidade fazer respeitar toda e qualquer religião.
Provavelmente, embora seja quase inacreditável, haja quem, na Prefeitura, ainda queira obrigar os terreiros de candomblé a tirar licença para cumprir os seus rituais, procedimento que foi abolido na Bahia em 1975. Tardiamente, mas abolido. A atitude do jovem fiscal evidencia que o ovo da serpente da discriminação, do preconceito ainda tem acolhimento, e não tão disfarçadamente. O espectro da Casa Grande continua a nos rondar. Eu me pergunto se o prefeito João Henrique tem conhecimento disso. Seguramente, o culpado não pode ser encontrado no jovem fiscal. Ele apenas obedece ordens.
A Prefeitura vem agindo de modo rotineiramente perverso com as religiões de matriz africana. Falar apenas em erros denotaria ingenuidade. São vários episódios. Lembro-me de outro, recente. Em 2008, a agressão atingiu o Ilê Axé Iyá Nassô Oká, o célebre terreiro da Casa Branca do Engenho Velho, o mais antigo templo afro-brasileiro em funcionamento, cuja fundação remonta ao início do século XIX, tido como uma espécie de “mãe de todas as casas” de santo do Brasil. É uma casa respeitadíssima. O então governador Waldir Pires, em 1987, declarou de utilidade pública para fins de desapropriação o posto de gasolina que ocupava área da Casa Branca, e aí surgiu então a Praça de Oxum, cujo projeto de urbanização foi de Oscar Niemeyer.
Pois bem, em 2008 a Prefeitura pediu o arresto do imóvel onde se encontra o terreiro da Casa Branca, depois de autuar uma sacerdotisa falecida há 80 anos por uma suposta dívida relativa ao IPTU. Seria cômico, não fosse trágico. Claro que um terreiro como a Casa Branca, visitado por governadores e presidentes, respeitado por outros credos não pode ser agredido assim impunemente, e a Prefeitura teve que recuar diante das reações. Se, no entanto, fazem isso com a Casa Branca, imaginemos o que continuarão a fazer com os demais terreiros, muitos deles pequenos, sem a notoriedade do Ilê Axé Iyá Nassô Oká. Creio que se impõe a todos os que defendem o respeito à diversidade religiosa, que se impeça o crescimento dessa atitude odiosa por parte da administração municipal em relação ao candomblé. Viva a liberdade religiosa.
Publicado no jornal A Tarde (12/04/2010)

FONTE: http://www.emilianojose.com.br/?event=Site.dspNoticiaDetalhe&noticia_id=341

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Mapeamento dos terreiros em Recife (PE) e região metropolitana

O mapeamento dos terreiros localizados em Recife (PE) e região metropolitana será lançado nesta sexta-feira (9), às 15h, na capital pernambucana. O evento, que contará com a presença do subsecretário de Políticas para Comunidades Tradicionais de Terreiro da SEPPIR, Alexandro Reis, será no Centro Cultural Rossini Alves Couto, no Ministério Público do Estado (Av. Visconde de Suassuna, 99, Boa Vista).

O mapeamento será realizado pela SEPPIR e Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), em parceria com a Fundação Cultural Palmares e a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e a Cultura (UNESCO). A execução fica por conta da Associação Filme de Quintal, ganhadora da licitação realizada no ano passado.

A iniciativa integra o Projeto Terreiros do Brasil, desenvolvido pela SEPPIR com o objetivo de articular políticas públicas para o fortalecimento institucional e melhoria da qualidade de vida das comunidades tradicionais de terreiro do país. Dentro do Projeto, também serão realizados mapeamentos em Belo Horizonte (MG), Belém (PA) e Porto Alegre (RS).

A expectativa é mapear, no mínimo, 6 mil comunidades de terreiro nas quatro capitais e regiões metropolitanas. Iniciativas similares trabalham a identificação de terreiros em Salvador (BA), Rio de Janeiro (RJ) e Distrito Federal.


Comunicação Social da SEPPIR /PR


--
Postado por Y.Valentim no Coletivo de Entidades Negras em 4/08/2010 06:47:00 PM