Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Revista de História da África e de Estudos da Diáspora Africana


Informamos que o terceiro número da SANKOFA já está disponível na rede, podendo ser acessada gratuitamente no endereço http://revistasankofa.googlepages.com.

Aproveitamos para abrir a chamada de artigos e resenhas do número 04, a ser lançado em dezembro de 2009, a todos os estudantes e pesquisadores da área. As regras para os autores também se encontra no site acima referido. A chamada será encerrada em 15/11/209.

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

CARTA ABERTA DOS ARTISTAS BAIANOS

Hoje, 03 de Julho de 2009, o Exmo.Governador do Estado da Bahia, Sr. Jaques Wagner,declarou nos principais jornais locais que os protestos ocorridos contra a atual política cultural e o Secretário de Cultura Marcio Meirelles, durante a comemoração do 2 de Julho –data magna da Bahia – partem das ‘viúvas do passado, acostumadas aos privilégios do governo anterior’.É assustador que o então Governador do Estado assim pense.O Governador, ao declarar este pensamento, revela uma visão confusa de cultura – porque não entende o papel da arte e de seus profissionais – e minimiza a insatisfação dos artistas baianos com a atual gestão da Secretaria de Cultura.As pessoas que compareceram ao protesto são artistas – e não só de teatro – que ao longo de suas vidas batalharam para o reconhecimento e profissionalismos de suas atividades; são artistas conhecidos e reconhecidos pela comunidade, alguns com nomes bastante relevantes. Assusta-nos que o então Governador, ao longo de quase três anos de governo, não reconheça que existe, sim, uma grande insatisfação na área cultural e que o nome do atual secretário, sistematicamente, pontuou as manchetes dos jornais, envolvido sempre em uma polêmica relativa ao desmonte da produção artística. Chamar de ‘viúvas’ os artistas baianos é, no mínimo, um desrespeito com estes profissionais, pois nenhum governo deu aos artistas, privilégios. Todas as conquistas na área cultural foram iniciativas dos artistas, individualmente ou coletivamente. Se o então Governador fosse um homem com esclarecimento amplo na área da cultura, entenderia isto muito bem. A Classe Artística não trabalha para ideologia política partidária e sim para a liberdade de expressão do ser humano, pois só através desta é que podemos tran sformar o indivíduo. Talvez more aí o poder da arte e a justificativa do descaso com que vem sendo tratada a nossa cultura. Nos respeite, Governador e reflita quando se dirigir a um grupo de trabalhadores que, devido ao subjetivismo de suas profissões não pode sequer recorrer à greve como instrumento de protesto. Mas não se esqueça que somos formadores de opinião e temos o apreço das platéias. O atual Secretário justifica o fracasso de sua gestão acusando a escritora Aninha Franco de orquestrar os protestos do 2 de Julho. O protesto ocorreu por iniciativa dos artistas e a citada escritora, em momento algum, colaborou para isto. É importante ressaltar que toda a mobilização ocorrida foi efetuada através de uma comunicação estabelecida unicamente através de e-mails, sem a necessidade sequer de uma reunião. Tudo isso, Sr. Secretário, para o Sr. perceber a insatisfação que grande parte da classe artística soteropolitana – que compareceu em massa – tem para com a política cultural dos atuais governos: estadual e municipal. A classe artística não precisa ser orquestrada, pois não é massa de manobra. É uma classe pensante e crítica e, talvez por isto, é que esteja sendo tão desrespeitada.‘Viúvas do passado’, como sugere o Governador, são todos aqueles que conseguem sobreviver aos governos, fazendo o seu ofício. São artistas como Carybé, João Ubaldo, Edgard Navarro, Lázaro Ramos, Margareth Menezes, Luis Caldas, Armandinho e Instituições como o Balé do TCA, Balé Folclórico, Museu Carlos Costa Pinto, Instituto Histórico e Geográfico, Theatro XVIII, Academia Baiana de Letras, Teatro Vila Velha e todos os que conseguem elevar o nome do nosso Estado, tornando-o um dos principais pólos de produção artística e uma das expressões culturais mais representativas do Brasil. Exigimos mais respeito, pois os privilegiados passam também pelo atual Secretário de Cultura que sobreviveu, e muito bem, den tro dos governos passados, conquistando o seu respaldo artístico em um sistema que ele hoje, oportunamente, combate. A discussão cultural é muito mais complexa do que se imagina. Sobreviver de arte, em si só já é uma arte e a maioria dos nossos políticos parece ignorar esta verdade. Acusar de privilegiados profissionais que em sua grande maioria não tem nem uma casa própria, é ultrajante. Qual o moral que um político tem hoje de se referir a uma classe de trabalhadores que emociona, diverte, informa e eleva a autoestima da população? Qual o moral que os grupos políticos podem ostentar em um país onde o Congresso Nacional afunda em meio à corrupção? Onde o Presidente da República, omissamente, a tudo assiste? Claro! Falar do Presidente ou ter qualquer idéia contrária a atual corrente de pensamento, virou coisa dos ‘privilegiados’ e das ‘viúvas do passado’. A lógica empregada pelo Governador é tosca, assim como é distorcido o pensam ento de que ‘quem não está a meu favor está contra mim’. Chegamos até o atual governo fazendo oposição aos grupos que estiveram no poder, uma oposição em nome da liberdade, pois somos artistas e precisamos dela e é em nome dela que agora estamos também criticando e nos posicionando contra a atual gestão ou falta de gestão cultural. Não temos compromisso com nenhum partido. A nossa bandeira não perpassa pelas ideologias partidárias e sim pela liberdade na garantia do Estado verdadeiramente democrático e de direito. Por isso, nos respeite, Sr. Governador.

Salvador, 03/07/2009

Sindicato dos Artistas e Técnicos do Estado da Bahia
Presidente: Fernando José Marinho
Secretário Geral: José Carlos da Silva

WALDELOIR REGO, UM BAIANO DA GEMA

Waldeloir Rêgo (antropólogo), Carlos Coqueijo Costa (advogado, compositor), Agnaldo dos Santos (escultor), Walter da Silveira (advogado, crítico de cinema - cinéfilo!), Vivaldo da Costa Lima (antropólogo), Mirabeau Sampaio (comerciante, escultor/ pintor), Virgílio de Sá (advogado e jornalista), [Carlito] Vasconcelos Maia (comerciante, escritor, diretor do turismo); anos 50, galeria oxumaré, salvador-bahia; foto de Voltaire Fraga (Fonte da foto: http://continhosparacaodormir.blogspot.com/2008_09_01_archive.html)

Para Waldeloir, inegavelmente, podemos aplicar, em toda a sua profundidade e verdade os lugares comuns que usamos para as pessoas falecidas: insubstituível, de saudosa memória, uma perda irreparável.

São realmente poucos os que se deram conta da tragédia humana e cultural que representa a perda de um intelectual do porte de Waldeloir.

Tive o privilégio, nestes últimos anos, de desfrutar da sua amizade e da sua cultura.

A sua aparência simples escondia um grande erudito, um incansável pesquisador, enfim, um preciosista do saber.

Era meticuloso na sua investigação histórica, não deixando nunca de confirmar todas as hipóteses de trabalho. Quando escreveu sobre a capoeira angola praticamente esgotou o assunto, tendo os livros que se seguiram ao seu simplesmente repetido o que ele já havia dito.

Tinha uma visão muito objetiva sobre a questão do negro, cuja origem assumia em toda a sua integridade, e afirmava categórico: o negro só se liberta pela cultura.

No candomblé aliou a participação ativa ao conhecimento antropológico, tornando-se, sem dúvida, uma das maiores autoridades mundiais no assunto. Ele não estava no candomblé como alguém de fora, que procura entender o que está acontecendo. Ele foi um reconhecido Pai de Santo, um sacerdote que era a fonte do conhecimento e da prática profunda dos ritos e cultos. Sabia por saber, e não por ouvir dizer.

A sua atividade artística, como “designer” nos deixou tecidos e jóias de uma beleza, digamos, etnologicamente correta. Sabia, como poucos, apreciar as delícias de um bom vinho e a melodia de uma boa música, principalmente ópera. Neste sentido, a cultura de Waldeloir não era negra, branca ou amarela: era a cultura universal que, ou tem todas as cores ou não tem cor nenhuma.

Quanto à comida, era um especialista, tanto na arte de fazer como de conhecer a história, os detalhes, as pessoas e os comportamentos que envolvem o ato de comer.

As viagens para a Europa, África e Caribe eram para ele momentos intensos de aprendizado e conhecimento. Desfrutava de tudo, com um profundo senso existencial.

Mas era aqui na Bahia que ele estava à vontade. Um pouco discreto, é verdade, mas ninguém como ele conhecia o carnaval, a comida, as ruas, as casas, os casos e os personagens civis, militares e religiosos. Se algum dia alguém for definir o “homo baianus” Waldeloir será certamente tomado como protótipo.

O seu conhecimento seguro e pormenorizado fazia com que fosse admirado pela vastidão de amigos que tinha, no Brasil e no mundo. Conversava sobre cultura com carregadores do mercado a embaixadores do Itamaraty. Romancistas como Jorge Amado o consultavam sobre aspectos da cultura africana, baiana e popular.

A sua paixão, porém, eram os livros. Não pelo objeto em si, mas pelo que continham. Sua vida foi uma constante convivência com livros, documentos, jornais, revistas, fotografias , fitas magnéticas e tudo que pudesse lhe transmitir informações. Não uma informação qualquer ou equivocada, mas a fonte correta, confiável, de procedência. Na busca desta informação se correspondia com as mais diversas pessoas e instituições do Brasil e do mundo inteiro, e nessa tarefa era incansável. Sempre me dizia que não era um bibliófilo. E apesar de ter edições raras e preciosas, todas elas faziam parte de uma constelação do saber, escolhidas de forma sistemática e necessária.

No emaranhado de estudos e pesquisas em que vivia, não conseguiu concluir um capitulo adicional e dar a segunda edição de “Capoeira Angola”, nem publicar “O Pirão do Negro” , um estudo sobre a alimentação, e o livro sobre os Afoxés.

Ás vezes Waldeloir tocava no assunto de vender a biblioteca, mas fazia a ressalva de que só o faria para o exterior. Ou então que faria uma doação, mas só para a Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro., porque a Bahia, segundo ele, não tem este cuidado com o patrimônio cultural.

Hoje, nesta cerimônia de inauguração do Memorial, estamos orgulhosamente mostrando que ele estava equivocado.

E ele, certamente no seio dos seus orixás...e quem sabe agora aqui entre nós...deve estar dizendo: ainda bem !

Eduardo Sarno

23.11.01 / 19.11.08

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

“Então é verdade, no Brasil é duro ser negro?”

A mais importante atriz de Moçambique diz ter sofrido discriminação racial em São Paulo
Eliane Brum
Fazia tempo que eu não sentia tanta vergonha. Terminava a entrevista com a bela Lucrécia Paco, a maior atriz moçambicana, no início da tarde desta sexta-feira, 19/6, quando fiz aquela pergunta clássica, que sempre parece obrigatória quando entrevistamos algum negro no Brasil ou fora dele. “Você já sofreu discriminação por ser negra?”. Eu imaginava que sim. Afinal, Lucrécia nasceu antes da independência de Moçambique e viaja com suas peças teatrais pelo mundo inteiro. Eu só não imaginava a resposta: “Sim. Ontem”.

Lucrécia falou com ênfase. E com dor. “Aqui?”, eu perguntei, num tom mais alto que o habitual. “Sim, no Shopping Paulista, quando estava na fila da casa de câmbio trocando meus últimos dólares”, contou. “Como assim?”, perguntei, sentindo meu rosto ficar vermelho.

Ela estava na fila da casa de câmbio, quando a mulher da frente, branca, loira, se virou para ela: “Ai, minha bolsa”, apertando a bolsa contra o corpo. Lucrécia levou um susto. Ela estava longe, pensando na timbila, um instrumento tradicional moçambicano, semelhante a um xilofone, que a acompanha na peça que estreará nesta sexta-feira e ainda não havia chegado a São Paulo. Imaginou que havia encostado, sem querer, na bolsa da mulher. “Desculpa, eu nem percebi”, disse.

A mulher tornou-se ainda mais agressiva. “Ah, agora diz que tocou sem querer?”, ironizou. “Pois eu vou chamar os seguranças, vou chamar a polícia de imigração.” Lucrécia conta que se sentiu muito humilhada, que parecia que a estavam despindo diante de todos. Mas reagiu. “Pois a senhora saiba que eu não sou imigrante. Nem quero ser. E saiba também que os brasileiros estão chegando aos milhares para trabalhar nas obras de Moçambique e nós os recebemos de braços abertos.”

A mulher continuou resmungando. Um segurança apareceu na porta. Lucrécia trocou seus dólares e foi embora. Mal, muito mal. Seus colegas moçambicanos, que a esperavam do lado de fora, disseram que era para esquecer. Nenhum deles sabia que no Brasil o racismo é crime inafiançável. Como poderiam?

Lucrécia não consegue esquecer. “Não pude dormir à noite, fiquei muito mal”, diz. “Comecei a ficar paranoica, a ver sinais de discriminação no restaurante, em todo o lugar que ia. E eu não quero isso pra mim.” Em seus 39 anos de vida dura, num país que foi colônia portuguesa até 1975 e, depois, devastado por 20 anos de guerra civil, Lucrécia nunca tinha passado por nada assim. “Eu nunca fui discriminada dessa maneira”, diz. “Dá uma dor na gente. ”

Ela veio ao Brasil a convite do Itaú Cultural, que realiza até 26 de junho, em São Paulo, o Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito. Lucrécia apresentará de hoje a domingo (19 a 22/6), sempre às 20h, a peça Mulher Asfalto. Nela, interpreta uma prostituta que, diante de seu corpo violado de todas as formas, só tem a palavra para se manter viva.

Lucrécia e o autor do texto, Alain-Kamal Martial, estavam em Madagáscar, em 2005, quando assistiram, impotentes, uma prostituta ser brutalmente espancada por um policial nas ruas da capital, Antananarivo. A mulher caía no chão e se levantava. Caía de novo e mais uma vez se levantava. Caía e se levantava sem deixar de falar. Isso se repetiu até que nem mesmo eles puderam continuar assistindo. “Era a palavra que a fazia levantar”, diz Lucrécia. “Sua voz a manteve viva.” Foi assim que surgiu o texto, como uma forma de romper a impotência e levar aquela voz simbólica para os palcos do mundo.

Mais tarde, em 2007, Lucrécia montou o atual espetáculo quando uma quadrilha de traficantes de meninas foi desbaratada em Moçambique. Eles sequestravam crianças e as levavam à África do Sul. Uma menina morreu depois de ser violada de todas as maneiras com uma chave de fenda. Lucrécia sentiu-se novamente confrontada. E montou o Mulher Asfalto.

Não poderia imaginar que também ela se sentiria violada e impotente, quase sem voz, diante da cliente de um shopping em um outro continente, na cidade mais rica e moderna do Brasil. Nesta manhã de sexta-feira, Lucrécia estava abatida, esquecendo palavras. Trocou o horário da entrevista, depois errou o local. Lucrécia não está bem. E vai precisar de toda a sua voz – e de todas as palavras – para encarnar sua personagem nesta noite de estréia.

“Fiquei pensando”, me disse. “Será que então é verdade? Que no Brasil é difícil ser negro? Que a vida é muito dura para um preto no Brasil?” Eu fiquei muda. A vergonha arrancou a minha voz.

Leia o artigo original

Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

CURSO: HISTÓRIA, CULTURA E ARTE YORUBÁ

GRUPO DE ESTUDOS AFRICANOS E AFROBRASILEIROS EM LÍNGUAS E CULTURAS – GEAALC

APOIO: PPGEL – DCH I – PROEX - UNEB

CURSO: HISTÓRIA, CULTURA E ARTE YORUBÁ

Este curso irá abordar fundamentos da história, cultura, religião e arte Yorubá. Será dada ênfase especial à Cosmologia, Arte e Iconografia dos Orixás, Simbolismo das Cores, Mediunidade e Máscaras.

PROF. DR. BABATUNDE LAWAL

Nascido na Nigéria, Babatunde Lawal graduou-se em Artes Plásticas na Universidade de Nsukka, Nigéria. Possui Mestrado e Doutorado em História da Arte pelas Universidades de Indiana (EUA). Ensinou por vários anos na Universidade Obafemi Awolowo, em Ile-Ifé (Nigéria), onde foi fundador e Chefe do Departamento de Belas Artes e Diretor da Faculdade de Artes. Atualmente é Professor de História da Arte no Virginia Commonwealth University, em Richmond, Virginia (EUA). Também foi professor visitante das Universidades de Harvard (Massachusetts) e de Columbia (New York), Dartmouth College (New Hampshire), Michigan State University (East Lansing), Kalamazoo College (Michigan), Harare Polytechnic (Zimbábue), Universidade de São Paulo – USP e Universidade Federal da Bahia – UFBA.

LOCAL:

AUDITÓRIO DO CPDER (Atrás do prédio do mestrado).

UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB

CAMPUS I

Rua Silveira Martins, 2555 – Cabula

INSCRIÇÕES E INFORMAÇÕES:

BIBLIOTECA DA PÓS-GRADUAÇÃO

PROFA. HILDETE

TEL: (71) 3117.2448

PERÍODO:

DE 06 A 10 DE JULHO DE 2009

HORÁRIO:

14 ÀS 18 H.

VALORES:

ESTUDANTES ..... R$ 25,00

OUTROS............ R$ 50,00