sábado, 10 de janeiro de 2009

Música está de luto com a morte de Edith do Prato

VÍDEOS


09/01/2009 às 18:20
SAMBA DE RODA

Percussionista era única no instrumento que escolheu: o prato e a faca

Duração: 01:38

Ver página original

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Seis anos da Lei 10.639/03

Caros colegas! Faltam dois dias para que a Lei 10.639/03 complete 6 anos. Seis anos colegas, e precisamos parar e refletirmos nas ações que foram realizadas até agora e qual foi o nosso papel nesse contexto.

Fizemos realmente o nosso papel, ou poderíamos ter feito mais! As ações que realizamos surtiram o efeito esperado ou devemos nos esforçar um pouco mais em 2009.

A quem cabe o papel de institucionalizar a lei? Esta pergunta ainda está sem resposta.

Eu particularmente, apesar de sentir que fiz o que estava ao meu alcance, penso que foi muito pouco ainda, uma vez que, as ações não frutificaram como esperava e já começo o ano com o planejamento de ações para 2009 e gostaria muito de poder contar com sugestões e contribuições dos colegas de outros estados, que sabemos que tem trabalhado e muito.

Compartilho com vcs mais uma pequena vitória, mas que somadas umas as outras esperamos que se torne grande, me filiei ao MUNDI Movimento Unificado Negro de Divinópolis e teremos hoje no dia 7 de Janeiro, a instalação da Comissão de Educação dentro do movimento, será composta por nove membros titulares e suplentes e terá entre outros objetivos o principal que será acompanhar nas escolas de Divinópolis e Região a implementação da Lei 10.639/03 e dar suporte as mesmas no Modo de Ver, de Sentir e principalmente no modo de Agir com relação a lei. As escolas de todo país estão de férias e eu também, mas não podemos cruzar os braços, porque o tempo urge e mesmo comemorando os seis anos da lei, temos ainda muito trabalho pela frente.

Abraços e saudações a todos
Maria Cristina dos Santos CEFET-MG/Divinópolis

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Resenha: A Formação do Candomblé: história e ritual da nação jeje na Bahia


Há livros que desde muito desejávamos ver escritos. Como este, de Luis Nicolau Parés, A formação do candomblé: história e ritual da nação jeje na Bahia.

Do que vamos sabendo sobre o tráfico negreiro na Bahia e sobre as suas populações escravas, podemos depreender que, no decorrer do século XVIII, entre um terço e metade dos africanos de Salvador e do Recôncavo Baiano seriam jejes, denominação que englobava fons, guns, hulas, huedás, popôs, evés, aízos, agonlis, mahis, savalus e outros povos de idioma gbe. Apesar disso e da importância que inevitavelmente teriam tido na construção dos valores e costumes baianos, os jejes ficaram à sombra dos estudos iorubanos. Estes foram de tal modo predominantes, que acabaram por empalidecer até mesmo a presença, em todos os planos da vida social baiana, dos ambundos, congos, pendes, quissamas, iacas, angicos, libolos e outros povos de falas bantas de Angola e dos Congos, que não deixaram, durante três séculos, de desembarcar em grandes quantidades na Bahia.

Este livro de Luis Nicolau Parés nos intima a repintar o quadro. Fruto de demoradas leituras, de pesquisas no Maranhão, na Bahia e na República de Benim e de um convívio de muitos anos com as comunidades veneradoras dos voduns, ele desenrola diante de nós, sempre com clareza e algumas vezes com minúcia, uma história que há muito queríamos conhecer – a dos jejes na Bahia –, e a entrelaça, com saber e habilidade, à da própria formação do candomblé. Para Luis Nicolau – e estas são duas das novidades dessa obra –, os cultores dos voduns, que falavam gbe, seriam responsáveis pela organização dos candomblés numa estrutura eclesial ou conventual, e teriam trazido da África o culto sucessivo de várias divindades no mesmo templo, o que não se conhece entre os iorubás no outro lado do Atlântico e tem sido interpretado como uma criação brasileira, resultante das condições sociais determinadas pelo regime escravista, sobretudo no âmbito urbano e em Salvador.

Confrontando e somando as tradições orais e as fontes escritas, Luis Nicolau narra e compara as histórias de dois santuários jejes, ambos surgidos na segunda metade do século XIX, e que se têm por mahis: um em Salvador, o Bogum; o outro em Cachoeira, a Roça de Cima, da qual saiu o Seja Undé. Escava o passado em busca de terreiros mais antigos e se detém, procurando, sempre que possível, mais do que esboçar suas biografias, sobre as mulheres e os homens que conduziram esses centros religiosos e foram transmissores de cultura e agentes de mudança. Desenha retratos inesquecíveis de alguns deles. E com eles caminha até o presente, para nos descrever o panteão dos voduns e os rituais jejes e identificar as mudanças que neles se processaram, ao longo do tempo, no Brasil e na África.

Em A formação do candomblé, o historiador jamais se despede do antropólogo, nem este do historiador. No livro, passa-se de uma das margens para a outra quase imperceptivelmente. Porque, bem pensado, é bem escrito. Bem escrito como deveriam ser todos os livros. Daí que suas páginas sejam lidas não só com interesse, mas também com encantamento.

Forçoso é registrar um pecado da editora: o livro não possui índice remissivo, que me parece indispensável numa obra importante como esta.

Por Alberto da Costa e Silva, historiador e embaixador.

www.editora.unicamp.br

Ver artigo original na Revista de História da Biblioteca Nacional

domingo, 4 de janeiro de 2009

Reproduzindo preconceitos seculares - nas apostilas para o vestibular e concursos

Encontramos este texto, reproduzido sem qualquer questionamento (mas talvez com o intuito de "instruir"?) no "Portal dos Concursos - Apostilas Portal dos Concursos" - "Processo Celetivo [sic] Simplificado da Secretaria Municiapl de Saúde - Prefeitura Municipal de Salvador - Cargo de Assistente Administrativo (Salvador: Editora Portal de Concursos, 2008), p. 22-23, e online, no link embaixo. Quem já leu ou ainda lê o excelente livro de João José Reis - Domingos Sodré, Um Sacerdote Africano (Companhia das Letras, 2008) - entenderá que, a mais de um século, os jornais brasileiros vêem o Candomblé (e a cultura afro-brasileira em geral) como um fator de "atraso".

Fantasmas primitivos e superstições cibernéticas?

O Brasil é um país de contrastes.
Enquanto diplomatas do Itamaraty pretendiam explicar aos americanos do Departamento de Estado como funciona a reserva de mercado para fabricantes brasileiros de equipamentos de informática, políticos ilustres - entre os quais um governador, um ministro de Estado,
um prefeito e dois candidatos ao governo de um grande Estado da Federação - reuniram-se num ato público impressionante: o enterro da Mãe Menininha do Gantois.
Mãe Menininha do Gantois era a mais famosa sacerdotisa de cultos espíritas de origem africana, no Brasil. Sua morte foi pranteada por compositores de rock, romancistas cotados para o Prêmio Nobel, artistas plásticos respeitados, cantores de música popular, boêmios notórios e notáveis do poder das repúblicas Nova e Velha.
Seu enterro parou a vida de uma das maiores cidades do Pais, Salvador, capital da Bahia,ao som dos atabaques e sob os olhares comovidos de milhares de pessoas que se enfileiraram nas calçadas das ruas do centro da cidade, por onde o cortejo passou.
Diante do cortejo imenso e da importância política que presenças ilustres deram ao ato, resta-nos raciocinar sobre o imenso esforço de educação que é necessário para que o Brasil se transforme numa nação moderna, em condições de competir com os maiores países do mundo.
A importância exagerada dada a uma sacerdotisa de cultos afro-brasileiros é a evidência mais chocante de que não basta ao Brasil ser catalogado como a oitava maior economia do mundo, se o País ainda está preso a hábitos culturais arraigadamente tribais.

Na era do chip, no tempo da desenfreada competição tecnológica, no momento em que a tecnologia desenvolvida pelo homem torna a competição de mercados uma guerra sem quartel pelas inteligências mais argutas e pelas competências mais especializadas, o Brasil, infelizmente, exibe a face tosca de limitações inatas, muito dificilmente corrigíveis por processos normais de educação a curto prazo.
Enquanto o mundo lá fora desperta para o futuro, continuamos aqui presos a conceitos culturais que datam de antes da existência da civilização. (O Estado de São Paulo - 17/08/86)

http://www.colegio24horas.com.br/ogloboeducacao2006/abrirpdfdc.asp?p=000Portugues&s=3&a=td0012_3g20_20060608000000.pdf

sábado, 3 de janeiro de 2009

Os Africanos no Brasil: Raça, Cientificismo e Ficção em Nina Rodrigues


Por JOSÉ APÓSTOLO NETTO

Historiador e doutorando em História (UNESP - Campus de Assis, SP)


INTRODUÇÃO

A idéia da fecunda interconexão entre História e Literatura tornou-se uma questão de ponta em alguns setores da historiografia institucional contemporânea. É o que vem ocorrendo, por exemplo, no interior da vertente interpretativa norte americana da Nova História Cultural. Com Hayden White e Dominique La Capra à frente, ela cumpre atualmente um papel de destaque nessa área de estudo. Em outros termos, surge como representante de um pequeno, mas significativo, movimento de aplicação e discussão teórico/metodológica da abordagem literária na história. E isto não por acaso. Nas suas fileiras existe uma nova geração de historiadores da cultura que faz uso quase inédito de técnicas e análises literárias para desenvolver novos materiais e métodos de pesquisa no campo da investigação histórica.

Como venho dedicando-me, há alguns anos, ao estudo da historicidade da arte e a dimensão artística da história, a partir da análise de alguns escritos de Monteiro Lobato e Gilberto Freyre – “O Saci”, “Negrinha” e “Casa Grande e Senzala”, respectivamente, no que diz respeito à questão do negro no Brasil, entendo que os pressupostos capitaneados pela Nova História Cultural são de grande serventia para o desenvolvimento de um trabalho dessa natureza.

Com vistas a trazer para solo cultural brasileiro a referida discussão e suas possíveis experimentações, pretendo neste artigo empreender uma análise crítica literária e historiográfica do livro “Os Africanos no Brasil” (1890-1905), de autoria do médico, etnólogo e professor da Faculdade de Medicina da Bahia Raimundo Nina Rodrigues (1862- 1906).

Tal empreendimento investigativo justifica-se, primeiro, porque Nina Rodrigues foi o primeiro estudioso brasileiro da virada do século XIX para o XX a colocar o problema do negro brasileiro enquanto um problema social, como uma questão de suma importância para a compreensão da formação racial da população brasileira; ainda que pese a perspectiva racista, nacionalista e cientificista que conforma a prática discursiva do autor.

Diz ele, no capítulo “Sobrevivências Religiosas, Religião, Mitologias e Culto”, sobre o tratamento dispensado pelas autoridades e pela imprensa baianas da época aos cultos de candomblé:

“Na África, estes cultos (jeje-nagô) constituem verdadeira religião de Estado, em cujo nome governam os régulos. Acham-se, pois, ali garantidos pelos governos e pelos costumes. No Brasil, na Bahia, são ao contrário consideradas práticas de feitiçarias, sem proteção nas leis, condenadas pela religião dominante e pelo desprezo, muitas vezes apenas aparentes, é verdade, das classes influentes que, apesar de tudo, as temem. Durante a escravidão, não há ainda vinte anos portanto, sofriam elas todas as violências por parte dos senhores de escravos, de todo prepotentes, entregues os negros, nas fazendas e plantações, à jurisdição arbítrio quase ilimitados de administradores, de feitores tão brutais e cureis quanto ignorante. Hoje, cessada a escravidão, passaram elas à prepotência e ao arbítrio da polícia não mais esclarecidas do que os antigos senhores e aos reclamos da opinião pública que, pretendendo fazer de espírito forte e culto, revela a toda hora a mais supina ignorância do fenômeno sociológico.

Não é menos para lamentar que a imprensa local revele, entre nós, a mesma desorientação no moda de tratar o assunto, pregando e propagando a crença de que o sabre do soldado de polícia boçal e a estúpida violência de comissários policiais igualmente ignorante hão de ter maior dose de virtude catequista, mais eficácia como instrumento de conversão religiosa do que teve o azorrague dos feitores”. (Rodrigues, 1977: 239)

Segundo, porque a sua obra, vista no conjunto, afigura-se como um clássico da literatura afro-brasileira. Ela é uma vasta e rica coletânea de informações e dados a respeito do universo cultural das comunidades negras no Brasil. Esforço etnográfico que nenhuma outra obra antes dela realizara.

Finalmente, porque a sua obra é considerada o resultado de um grande esforço intelectual de mais de uma década (1890-1905), no intuito de coligir e coletar registros e evidências (escritas e orais), no dizer do próprio autor, dos “últimos africanos no Brasil”. O que faz dela um ponto de referência bibliográfico obrigatório para todos os estudiosos da problemática do negro na sociedade brasileira.

Posto isto, convém dizer que a proposta aqui é empreender uma análise crítica literária e historiográfica do discurso racista de Nina Rodrigues em “Os Africanos no Brasil”; mapeando as condições de sua existência, para deste modo entendê-lo, não como revelador da história acontecimento (discurso que veicula uma verdade), e sim enquanto, ele mesmo, acontecimento histórico (discurso que é representação, construção).

Cabe dizer ainda que a presente desconstrução discursiva será operada por meio da crítica literária de cunho histórico/social e estruturalista, assentada na perspectiva da dialética forma/conteúdo que pretende ver o elemento externo (o extra-literário) como fator de criação , tornando-se assim elemento interno.

O contexto histórico, cultural, literário e institucional contribui, em grande parte, para a formação do pensamento do escritor e/ou do estudioso. Claro que não de forma mecânica e imediata, pois ele (o contexto) é tão múltiplo e diversificado – como também são múltiplas e diversas as interações que podemos estabelecer com o mesmo – que a estrutura mental do pensador acaba por ser constituída de inúmeras mediações psicogenéticas e sociogenéticas de difícil determinação espaço-temporal de causa e efeito.

Todavia, o contexto não deixa de ser, mesmo assim, um excelente critério de avaliação da forma mentis do escritor; e, no caso de Nina Rodrigues, ele torna mais compreensível a mentalidade racista, nacionalista e cientificista veiculada pela sua obra.

Ele, na condição de médico legista e professor de medicina legal na Universidade da Bahia, no fim do século XIX e começo do século XX, dificilmente escaparia ao engendramento de um pensamento deste tipo; pois, encontrava-se atuando – e por ele foi formado – dentro de um ambiente institucional, acadêmico e intelectual recortado, basicamente, pelas teorias e idéias racistas, nacionalistas, evolutivo positivistas, de sabor oitocentista. Darwin, Augusto Comte, Heckel, Cesari Lombroso, Enrico Ferri e R. Garofollo e Alexandre Lacassagne foram seus mestres, para os quais, numa atitude de discípulo zeloso, dedicou o volume de “As Raças Humanas e Responsabilidade Penal no Brasil”.

Visto assim, não fica difícil entender por que Nina Rodrigues assume, e comunica na sua obra, um discurso sobre o negro pautado no paradigma da determinação biológica e cultural da superioridade ariana, na medida em que ele recebe influências dos ideólogos e teóricos do mesmo.

Mas o interessante, após termos feito este pequeno mapeamento da natureza histórica e cultural do pensamento de Nina Rodrigues, é ver como ele encontra-se estruturado no livro “Os Africanos no Brasil”. Importando-nos, agora, apenas identificar o estilo do autor, que configura-se enquanto uma linguagem pretensamente “neutra”, “objetiva”, cientificista e de elaboração de enredo do modo trágico.¹

O estilo de Nina Rodrigues é denunciado pela própria organização formal de “Os Africanos no Brasil”. Ela traduz-se basicamente na forma de narrativas analíticas e descritivas, comunicadas por um narrador em terceira pessoa e onisciente, que está referenciado no passado (pretérito perfeito); representando literariamente assim o método de investigação científica positivista do século passado.

A técnica literária realista manipulada por Nina Rodrigues o deixa muito à vontade com a sua consciência científica para construir toda a teia discursiva de classificação e tipologização do universo do negro em “Os Africanos no Brasil”, visto que, respaldado por ela, no sentido de criar a ilusão de distanciamento científico, acredita e leva-nos, nós leitores, a acreditar que ele (o autor) esteja falando do seu objeto de estudo (no caso, o negro) apenas aquilo que lhe é intrínseco, sem interferências subjetivas.

Com efeito – e é aí que reside o perigo maior – o autor e o leitor não se dão conta, graças a alguns procedimentos lingüísticos e literários, do teor racista e, portanto, recortado, da rede discursiva de “Os Africanos no Brasil”, tomando-a como verdade. Ou seja, são levados a acreditar no enunciado básico do livro de que o negro é inferior, em todos os aspectos, em relação ao homem branco “civilizado”, devido as suas características “deficientes”, “patológicas” e “degenerativas”.

A técnica realista constitutiva e constituinte da narrativa de “Os Africanos no Brasil” funciona, por assim dizer, como um narcótico mental que impede o leitor de apreender a interferência da subjetividade do autor no momento narrativo no qual ele constrói um significado sobre o negro.

Ocorre, contudo, que Nina Rodrigues, o sujeito do discurso, esconde-se atrás do narrador onisciente (que tudo conhece) e, através dele, delega, por sua vez, voz ao negro, ocultando-se da narrativa, da qual temos a impressão de contar-se a si mesma. E estes expedientes formais, sem falarmos de que a matéria narrada no passado torna-se mais verídica, impedem, ou apenas dificultam, a nossa percepção de que esta voz do negro não passa senão de uma construção discursiva. Em outro termos, impede-nos de ver que a voz do negro é filtrada pela linguagem racista do autor, pela sua subjetividade.

Em termos de estrutura profunda e estrutura superficial, a análise crítica literária revela ainda como o texto “Os Africanos no Brasil” esconde, atrás de um suposto trabalho científico de caracterização do universo negro, um pernicioso processo de diferenciação racial entre brancos e negros. Processo de diferenciação baseado na inferioridade do segundo em relação ao primeiro.

Quando Nina Rodrigues, por exemplo, narra os cultos religiosos, os rituais, a magia afro-brasileira, é somente para demonstrar a incapacidade do negro assimilar a religião católica, pelo fato, segundo o autor, de ser desprovido do pensamento abstrato. Ou, quando refere-se à língua do negro, é para demonstrar a simplicidade da estrutura da mesma. E, finalmente, quando aborda a arte afro, é para concluir que ela é “rústica”, “deformada” e “primitiva”.

Com uma visão pessimista em relação à presença do negro na sociedade brasileira, Nina Rodrigues não poderia desenvolver textualmente o seu pensamento senão através de uma elaboração de enredo no modo trágico. O livro “Os Africanos no Brasil” tenta a todo momento mostrar os perigos que representa a influência direta ou indireta do negro na nossa cultura; bem como a descrença no florescimento da Nação brasileira fundada na miscigenação, sugerindo o branqueamento, via imigração européia, da população como fator de redenção nacional.

Concluindo, espero que tenha conseguido descrever o estilo literário e historiográfico de Nina Rodrigues no livro “Os Africanos no Brasil”. Estilo que, como foi apontado, pode ser descrito como cientificismo trágico.

Ao mapear as contribuições históricas e culturais na formação do pensamento racista do autor e, posteriormente, demonstrar como este foi transfigurado literariamente, detectando os recursos expressivos acionados, acredito ter colocado em operação a dialética estrutura conteúdo ou, como preferirem, texto/contexto.

Esse mapeamento serviu para mostrar o poder capturador e narcotizante do discurso racista de Nina Rodrigues, na medida em que o trabalho desmascarou os expedientes lingüísticos e literários de criação da idéia de neutralidade e objetividade analítica do mesmo, funcionando no sentido de construir uma “verdade” sobre o negro brasileiro.


Fonte: Revista Espaço Acadêmico 44, Janeiro de 2005